Entrevista: Dead Fish mais antifascista do que nunca

O novo e raivoso álbum virado ao avesso pelo vocalista Rodrigo Lima

foto de divulgação Dead Fish Ponto Cego
Foto: Dead Fish (Marcelo Marafante @marcelo.marafante)
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por Sté Reis

Dead Fish lançou “Ponto Cego” na última semana, um de seus álbuns mais rápidos e raivosos. E tudo o que você precisa saber sobre já está rodando em diversas matérias por aí: foi produzido por Rafael Ramos, parceiro de longa data dos caras, com participação de Bill Stevenson (batera do Descendents) que produziu uma porrada de clássicos no hardcore. É o nono na discografia da banda, com letras afiadas sobre o cenário político atual e vai ser lançado na Audio no dia 15 de junho. 

Aqui o que você encontra é uma conversa transparente e sem edições sobre a política atual, as inspirações da banda para o disco e a resposta para algumas tretas que envolveram o nome do Rodrigo nos últimos tempos.

Lançar um álbum de 14 faixas no Brasil em 2019 é um movimento ousado no meio da onda de feats, singles e ouvintes cada vez mais dispersos. Como foi essa curadoria das faixas e processo de composição? O que você precisava dizer com esse álbum?

Sim, a gente sempre teve uma postura mais de agradar primeiro internamente e depois, as pessoas que nos ouvem, acho que sempre foi uma coisa que deu muito certo porque se estamos legais internamente, não importa se estamos infringindo a regras de algum jogo novo ou de alguma tendência.

Sonoramente o álbum se pretendeu mais pesado, mais direto e menos melódico. Isso ficou muito a cargo do Marcão e do Ricardo Mastria. Durante o ano e tanto que fizemos demos ficou claro que seria um álbum diferente do penúltimo, o “Vitória”. Quanto às letras, de primeira entendi que não podia escrever esse álbum sozinho, queria dar uma visão maior do que minha raiva com tudo isso que estamos vivendo no Brasil, precisava de algo mais classudo, mais assertivo e o Alvaro Dutra veio na hora na minha cabeça, também por conta da parceria em algumas músicas no outro álbum.

“Ponto Cego” foi um conceito que surgiu depois de um monte de conversas que tive com o Alvaro. Passamos noites e dias falando de tudo, desenhando, ouvindo alguns sons da demo que já tínhamos. Num dado dia, ele apareceu em SP com seu caderninho e um monte de anotações sobre tudo que falamos e no meio do papo ele desenhou um prédio cheio de janelas, e de dentro dessas janelas sairiam todas as ações do disco. Dali a gente achou o conceito de falar de macropolítica através de uma bolha, uma bolha muito específica. Dali pra frente foi escrever, ligar uma letra na outra e construir o conceito.

“Ponto Cego” tem um fio condutor que passa por muitos fatos do nosso cenário político e social. Faixas como “SUVs”, “Doutrina de Choque”, “Messias”, “Janelas” e “Receita pro Fracasso” são reflexos do que passamos nos últimos anos, claramente pautados pelo viés da esquerda, como sempre percebemos em letras do DF. E você também desde sempre falou nos shows que o espaço do DF não é pra fascista. Por que acha que isso recentemente se tornou tão ofensivo para alguns fãs?

Porque eles se perceberam fascistas, simples assim. Se você tentar reparar, muitas das músicas são textos sem sujeito, e isso foi intencional. A gente provocadoramente resolveu perguntar de uma forma textualmente direta quem iria vestir a carapuça de forma indireta.  Pagamos pra ver quem iria gritar sem ter sido apontado ou citado e muita gente pegou sua carapucinha com suástica e saiu por aí abrindo o coração. Isso foi uma decisão racional quando escrevemos e está aí, os armários todos abertos. Agora resta saber quem vai mudar, entender e destruir esse comportamento que está nos ossos da nossa construção histórica ou quem vai perseverar na tosquice.

Foto: Marcelo Marafante

Pensando em “Não Termina Assim”, o quanto manter o otimismo frente ao caos é importante pra luta?

Não sou otimista, nunca fui. O importante é saber que a luta é infinita e as coisas não vão estar resolvidas enquanto todos não estiverem incluídos, e essa luta pode não ser finalizada pra amanhã ou depois de amanhã, é para duas, três gerações à frente. E que privilégio, você não acha? Estarmos aqui aptos para fazer nosso “Party for your right to fight”, como diz o Public Enemy, é lindo. Estamos lutando pelo certo, pelo justo.

Quem é o artista da capa? Como ela surgiu?

Se chama Flávio Grão, é um velho amigo do ABC paulista. Ele fez uma capa para uma coletânea do nosso antigo selo ainda quando vivíamos no Espírito Santo, isso foi em 2002. Essa capa e essa coletânea ficaram muito conhecidas e quando estávamos fechando o álbum pensamos nele e deu muito certo, também por conta do teor das letras, pelo Flávio ser filho de metalúrgicos, ele entendeu de cara a intenção do disco e fez esse trampo lindo.

Capa de “Ponto Cego”, obra de Flávio Grão

“Sangue nas Mãos” foi um dos assuntos mais comentados no dia do lançamento, no Twitter. Algo semelhante aconteceu com Djonga, Criolo e Emicida em lançamentos críticos ao governo que ajudaram a endossar o “Fora Bolsonaro”. Você acredita que o Twitter ajuda a trazer uma discussão mais aprofundada sobre as músicas?

Me mostraram isso de estarmos sendo falados no twitter. Eu não tenho essas redes, tomam muito tempo, prefiro ler algo, jogar bola ou andar de skate, mas dizem que essa rede faz muita diferença nas discussões atuais, até o Bozo e o Trump usam da forma mentirosa deles. Tenho certeza que é uma boa plataforma para saber de mais do que eu sei no meu dia a dia, e definitivamente é importante para dar visibilidade a assuntos mega relevantes hoje em dia, como foi o “Ele Não” e muitas outras pautas. Hoje a militância política não pode se dar ao luxo de não estar ali.

A música é instrumento, é meio, é parte de um todo, um fio condutor. Sem ela a política seria muito mais chata, careta e permissiva. A arte tem que ter esse papel de contestar, de falar o que as pessoas têm medo de dizer. Toda ditadura tem medo de música, professores e jovens, e mais do que nunca, vivemos um momento de ditadura dissimulada de democracia, então precisamos falar e que esse falar deságue em ação.

Pensando no contexto da Revolution Radio, que tenta promover ONGs e causas sociais para um público mais politizado, nos perguntamos porque é tão difícil engajar a comunidade do hardcore em ações sociais fora da internet. Será que é só diversão e extravasar mesmo, e da porta do show pra fora, já era?

Pode ser que você esteja certa, pode ser mesmo! Já me questionei e já fui questionado quanto a isso. Existem muitas teorias e eu posso falar de uma que sempre discuto por aqui.

O punk vem da classe trabalhadora sem futuro de países desenvolvidos, mas a ideia do punk se tornou muito mais ampla, eu ousaria dizer que hoje o punk está infiltrado em tudo, das artes, passando pelos hackers e indo até o futebol, o que é muito bom, resta saber quando venceremos. Falando um pouco aqui da minha bolha, o que eu posso dizer é que o hardcore, principalmente o melódico, já vestiu uma roupagem de garotos de classe média, mais agressiva e muitas vezes mais conservadora. Lá nos EUA os caras do Minor Threat já falaram isso em suas músicas ainda nos anos 80, mas depois veio o boom dos anos 90 e acho que essa discussão ficou dissolvida no enorme sucesso que as bandas faziam, elas eram parte do mercadão, viraram produto e foi nessa época que acho que essa galera cresceu, vivia-se mais a estética do que a ideia em si, boa parte dos meus ex-amigos que hoje são coxas e nitidamente só quiseram viver a estética da coisa, se sentiu insultada quando foram lembradas das bases da coisa toda.

Talvez por isso, hoje seja complicado fazer um movimento de ideias mais coeso e até mais relevante, coisa que os garotos do rap por terem a questão étnica e social muito mais forte em suas bases, fazem mil vezes melhor. Eu diria que as bases de ideias do punk, hoje, estão muito mais com esses caras que conosco, que estamos batendo cabeça com nossa estética e com nossa questão de classe ultra inconsciente.

Pessoalmente, ainda jogo todas as minhas fichas no Hardcore como veículo contestador, fizemos um grupo chamado “Hardcore Contra o Fascismo” ano passado e ele se espalhou muito rápido pelo Brasil, muita gente querendo ajudar, mas ele surge e some muito rápido, talvez criar uma militância interna, talvez criar um grupo com líderes, vai saber. O que eu sei é que somos tão segmentados e contestadores que acabamos morrendo no imobilismo e nos detalhes.

Foto: Marcelo Marafante

Da nossa segunda entrevista pra cá, pessoalmente, evolui muitas questões, inclusive dentro do feminismo. Fui mãe de uma menina e mesmo sendo mulher busco rever sempre alguns pensamentos. Como é essa questão pra você? Você já deu suas explicações sobre o caso Lupita, e nem é isso que busco, mas quero entender o quanto a cena musical busca rever algumas ideias (como o Brown, que mudou letras dos Racionais e parou de tocar “Estilo Cachorro”) para incluir as mulheres na cena. No palco e no público. Você não faz ideia do que é ser mulher num bate cabeça de um show seu.

Não me lembro de ter escrito uma música com letra de teor sexista na minha vida, apesar de Lupita ter sido interpretada equivocadamente dessa forma. Lupita é uma música linda de amor que adoro, feita pra uma garota incrível, que salvou minha vida de verdade e que é erradamente interpretada por um texto de faixa a faixa que eu fiz que ficou ruim, hoje vejo que foi muito ruim. Dei uma resposta marrenta naquele momento, mas tive sorte de encontrar uma menina chamada Mari, que me foi apresentada por outros amigos e que conheceu a minha companheira e que gerou uma discussão enorme em torno do tema dentro da minha casa e foi sorte a minha que não precisei ser defensivo, que pude falar as coisas às claras, olho no olho e que cheguei a um ponto de vista que ajuda muito mais a criar a minha filha hoje, também sou pai de uma menina linda.

Talvez o Dead Fish, fora bandas de mulheres, tenha sido uma das primeiras bandas a falar sobre as meninas serem respeitadas no moshpit, isso no Hangar 110, ainda nos anos 90. Me incomodava ver as meninas sendo tocadas durante nosso show, principalmente nos stage dives. Eu sempre via que tinha um moshpit violentíssimo e que eu adorava, inclusive, pra mim a agressividade era uma demonstração brutal de contestação e poder, como o time de rugby da Nova Zelândia, saca? Talvez as garotas não pensassem o mesmo ali embaixo, mas eu as queria ali, sempre quis.

A rapper Gloria Groove falou na semana passada sobre a cultura de cancelamento no Twitter dela. Morrissey e Dead Kennedys são os cancelados da vez, seja por ideias fascistas ou por omissão. Como você vê essa participação mais crítica dos fãs em relação a arte do artista? Existe diferença entre artista e obra pra vc?

Desculpa, mas eu entendo nada do que seja a cultura do cancelamento, mas posso falar um pouco sobre o Morrissey que definitivamente deve ser cancelado. É trágico mas eu estou vendendo até meus lindos discos do The Smiths, como fiz com o “Nós vamos invadir sua praia” uns anos atrás. É inacreditável o quanto uma pessoa como o Moz possa ter se tornado isto, não consigo entender mesmo. Talvez ele sempre fosse isso que estava dizendo ser agora e a gente nunca percebeu.

Uma vez li um texto no Guardian que tentava falar sobre ele e as novas ideias, o Johnny Marr fala umas coisas, os fãs antigos ingleses falam, mas nada se esclarece, resta mesmo a gente mudar de artista, uma tragédia. A primeira vez que ouvi falar de veganismo, que no meu ponto de vista é um super ato político progressista, foi num zine falando de uma letra que ele escreveu nos Smiths.

Quanto ao Dead Kennedys, eu acabei de responder uma entrevista falando sobre eles. Eu ainda os amo, ainda tenho os discos com o Jello cantando, eles foram minha formação óssea, são minha cultura, mas eles foram equivocados, aquele cartaz estava lindo de viver. Talvez tenham sido induzidos a erro, talvez ficaram com medo de algo realmente acontecer com os fãs, eles não têm obrigação de entenderem a nossa distopia local mesmo tendo um Trump nas costas, ou talvez lavaram a mãos mesmo, vai saber.

O que eu sei é que eles não erraram sozinhos e no tribunal da internet botaram tudo na conta deles. A gente costuma ser passional demais na América do Sul, somos adeptos cristãos de crucificações, mesmo que inconscientemente. Se pensarmos mais racionalmente eles deram uma bola fora monstra sendo a banda que são, mas não fizeram isso sozinhos.

Quanto a fãs serem críticos, eu acredito que seja pra isso que escrevemos músicas, para que as pessoas as leiam e formulem um ponto de vista, é mega importante. Isso os afasta do conceito literal de fãs e os torna gente que ama música, arte e pode ir pra onde quiser com isso. Dependendo do artista e obra é preciso separar sim, um exemplo é o Misfits, os caras não são aqueles personagens em suas vidas pessoais, muitos menos as letras. Já alguns outros artistas como o Gainsbourg ou o NWA não podem ser separados de suas obras, eles são exatamente aquilo. A arte e a música principalmente não podem ser vistas com regras cartesianas, é muito mais amplo que isso e é importante que todas as pessoas entendam dessa forma.

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