Sangue, Sapataria e Pussy Riot

Veja como foi o festival “Garotas à Frente” em SP

Foto: Festival Garotas à Frente (Revolution Radio)
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Tem muito oportunismo rondando as discussões sobre empoderamento feminino. Mas quem compareceu no Festival Garotas à Frente sábado passado pode viver o movimento riot grrrl na essência. O evento no Fabrique Club em São Paulo, organizado pela Powerline Music, transpirou feminismo em suas mais diferentes vertentes.

Logo na entrada, a casa de shows recebeu o público com uma exposição impactante sobre as injustiças impostas às mulheres até hoje pela sociedade machista. Padrões de beleza, sexualidade e direitos iguais foram retratados por diferentes artistas, inspirando mulheres a encarar de frente qualquer preconceito.

Exposição na entrada do Festival Garotas à Frente (imagem: Revolution Radio)
Exposição na entrada do Festival Garotas à Frente (imagem: Revolution Radio)

Na plateia, bancas trouxeram uma amostra da melhor produção feminista contemporânea: zines, roupas e acessórios, além de livros – dentre eles “Garotas à Frente”, obra de Sarah Marcus sobre o riot grrrl nos EUA (compre aqui), e “Um Guia Pussy Riot Para o Ativismo”, da líder da banda, Nadya Tolokonnikova (compre aqui).

Merchandise banda Sapataria (imagem: Revolution Radio)
Lançamento do livro “Um Guia Pussy Riot Para o Ativismo” (imagem: Revolution Radio)

A primeira apresentação musical ficou por conta da Bloody Mary Una Chica Band. Em época de duos como Black Keys e Royal Blood, a paulistana Marianne Crestani levou o minimalismo ao extremo: como o nome diz, ela é a banda de uma mina só, com guitarra em punho, bumbo e chimbal nos pés. Além de entregar um guitar rock monstro, sujo e rasgado, destila atitude: brindou sua apresentação derramando um cálice cheio de sangue no rosto, em homenagem às vítimas de feminicídio e homofobia.

Bloody Mary Una Chica Band (imagem: Revolution Radio)

Parte da audiência tinha a esperança de ver o Pussy Riot executando o som punk do começo de sua carreira, mas quem colocou o hardcore pra tocar mesmo foram as minas do Sapataria. Quem viu e ouviu a desenvoltura das paulistanas não acreditava que acabaram de lançar seu primeiro EP. Marina (guitarra), Dan (baixo), Isa (bateria) e Zu (vocal), todas lésbicas, relataram experiências pessoais antes de botar o som pra comer: histórias sobre expulsão do banheiro feminino, assédio moral no trabalho e homofobia familiar são combustível pro seu punk hardcore cru e direto.

Banda Sapataria (imagem: Revolution Radio)

Para fechar a noite, o Pussy Riot, mais coletivo que banda, escolheu uma configuração com a líder Nadya no vocal, um DJ/guitarrista e dois performers com suas cabeças cobertas pelas famosas balaclavas coloridas. Logo de cara, Nadya elogiou as bandas que tocaram antes e deixou claro que ama punk, rap e pop. Do punk da época da prisão na Catedral de Moscou, duas faixas compuseram o setlist. A apresentação focou em músicas mais recentes que oscilam entre o rap e eletrônico. Mesmo com sonoridade dançante, o Pussy Riot conseguiu manter um climão tenso próprio de suas performances. “Police State” e “Straight Outta Vagina”, de levadas mais pop, fizeram o público dançar enquanto imagens impactantes no telão traduziam as letras sobre abuso policial e misoginia. Outras flertam mais com rap world music, como “Bad Girls” e “Bad Apple”. No geral o clima nervoso ficava escancarado em faixas com batidas intensas e graves, caso de “Organs”, e que foram pano de fundo para mensagens projetadas contra todo o tipo de opressão – o governo de Putin é a metáfora mais direta.

Inevitável nesse contexto uma menção ao atual governo brasileiro, com coro entoado pelo público e seguido por Nadya, que ergueu uma faixa dada por um fã na plateia com os dizeres “Fora Bolsonaro”.

Pussy Riot (imagem: Revolution Radio)
Pussy Riot (imagem: Revolution Radio)
Nadya, do Pussy Riot (imagem: Revolution Radio)

AzMina

Instituição sem fins lucrativos que usa a informação para combater diversos tipos de violência que atingem mulheres brasileiras, considerando as diversidades de raça, classe e orientação sexual. A ONG mantém a publicação online Revista AZMina.

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